“O teatro tem que ser apresentado à população negra mais cedo”, diz produtor Adelino Benedito sobre a campanha de popularização do teatro
- 21/08/2022
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Notícia Preta 20/08/2022
Por Marina Lopes
Foto: Chester Marcone
Acontece em Juiz de Fora (MG) a 19ª Campanha de popularização do teatro e da dança. A campanha, que teve início no dia 04 e vai até o dia 28 de agosto, tem programação adulta, infantil e espetáculos de dança. Ao todo são 22 espetáculos teatrais, 2 espetáculos de dança, além de oficinas.
A Associação de Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (APAC-JF), é um dos grupos organizadores da campanha e tentam democratizar os espaços onde os espetáculos são realizados, colocando as produções também em lugares não centrais da cidade, mesmo sem ter muito incentivo fiscal.
“Esse ano, infelizmente, a gente não tem apoio de nenhuma lei de incentivo, a gente está fazendo o que pode, sabe? E ainda conseguimos fazer muita coisa sem lei nenhuma de incentivo. Mas eu acho que a cidade precisa se abrir mais ainda, muito mais [para a diversidade étnico-cultural]”,diz Adryana Ryal, uma das organizadoras da campanha.
Refletindo o cenário nacional, os produtores culturais negros de Juiz de Fora têm grandes dificuldades de se destacar no meio artístico, seja por falta de investimento e/ou por consequência do racismo. Ator e Produtor Cultural, Adelino Benedito (47), conta que apesar de não ter sofrido um racismo explícito e direto dentro do teatro, percebe que teria dificuldades em participar de projetos caso ele mesmo não se produzisse.
Ele ressalta também que essa estrutura de exclusão só irá se modificar quando a população negra começar a se enxergar dentro do teatro: “Eu acho que na verdade o teatro tem que ser apresentado para população negra mais cedo, até para poder tirar esse estigma que tem de o teatro ser uma coisa de rico. Teatro na verdade nunca foi convidativo para a população negra. Eu acho que é você fazer projetos para que as crianças vão ao teatro porque a partir disso, você cria uma plateia, o hábito de ir ao teatro”, conclui.
Presença negra no teatro Juiz-forano
Tiê Fontoura (36), produtor cultural, diretor e ator, comenta que a Campanha de Popularização tem como importância dar espaços para diretores negros, que eles não teriam, normalmente, por serem espaços muito caros de se acessar. Tiê traz como exemplo, o ator e produtor cultural Adelino Benedito, 47 anos, que é o único homem negro retinto a levar um espetáculo solo de comédia para o maior teatro da cidade, o Cine-Theatro Central.
Além disso, ele ressalta que existe uma expectativa em cima dos artistas negros, de que sempre se traga temáticas raciais em suas produções, limitando, assim, seus processos criativos:
“Eu quero ocupar aquele espaço (teatral) dentro de uma condição de poder, de alta cultura. Do que é chamado a alta cultura, por exemplo. E isso é uma representação muito forte pra mim. Então, quando você escapa dessas expectativas do que é o teatro negro, o que é o teatro do homem periférico, da mulher periférica, você acaba também não fazendo parte, porque você não atende uma expectativa que já foi imposta sobre você. Nem todo mundo quer falar sobre preconceito, eu também não quero às vezes. E está tudo bem com isso também”, reforça Tiê
Nessa edição, como disse em entrevista Adryana Ryal, a presença de diretores/produtores teatrais negros têm começado a se tornar mais forte. A mesma diz, que ainda está longe de uma real representatividade devido a falta de incentivo fiscal, mas já se pode ver o início desse processo. A campanha conta com nomes como: Lucimar Silvério, Tiê Fontoura, Paulo Moraes, Adelino Benedito, Valdir Alves e Grupo Nzinga de contadoras de histórias. Também é importante ressaltar que a APAC, responsável pela organização do projeto, tem como uma das diretoras Danyela Silvério: artista negra e produtora cultural de Juiz de Fora.






